A gravidez é um dos períodos de maior transformação na vida de uma mulher. Em poucos meses, o corpo muda a forma como respira, digere, dorme e circula o sangue, e a cabeça acompanha estas mudanças como pode. Na prática clinica vejo que há desconfortos que são considerados «normais da gravidez» e que, por isso, ficam sem resposta, apesar de pesarem no dia a dia.
Neste artigo explico como olho para a gravidez pela Medicina Tradicional Chinesa, o que faço em cada trimestre e como é feito o acompanhamento, como complemento ao acompanhamento médico.
Como a Medicina Chinesa olha para a gravidez
Na Medicina Chinesa, a gravidez é vista como um período de grande exigência para a mãe. Para formar e nutrir o bebé, o corpo da mulher usa as suas reservas mais profundas: aquilo a que chamamos Essência (Jing), o Yin e o Sangue. Quando estas reservas estão equilibradas, a gravidez tende a decorrer com mais conforto. Quando estão em falta, ou quando há tensão acumulada, surgem com mais facilidade o cansaço extremo, os enjoos, as dores, a insónia ou a ansiedade.
A medicina convencional descreve a gravidez de uma forma que, curiosamente, conversa bem com esta visão: o sistema imunitário da mãe passa por fases diferentes ao longo das semanas, primeiro para permitir a implantação e a formação da placenta, depois para proteger o crescimento do bebé e, no fim, para preparar o parto. Em cada uma destas fases, o corpo precisa de coisas diferentes, e é isso que procuro respeitar no tratamento.
Primeiro trimestre: proteger e nutrir
As primeiras semanas são as mais delicadas. É o tempo da implantação e da formação da placenta, e muitas mulheres sentem um cansaço que não conheciam, enjoos, sono leve, sensibilidade aos cheiros e, muitas vezes, medo. Isto é ainda mais comum quando a gravidez surge depois de uma perda ou de um processo de PMA, FIV ou IIU.
Nesta fase, o tratamento é suave. Escolho os pontos com muito cuidado, uso poucas agulhas, muito finas, e evito as combinações que a tradição chinesa e a prática clínica desaconselham na gravidez. O objetivo é apoiar o corpo, aliviar os enjoos e o cansaço e ajudar a acalmar a mente.
A dietética chinesa tem aqui um papel importante. Em geral, recomendo:
- refeições pequenas e frequentes, com alimentos cozinhados e mornos, que são mais fáceis de digerir;
- proteínas leves, como peixe, ovos e frango, e sementes e frutos secos;
- evitar o álcool por completo e reduzir o café ao mínimo, falando sempre com o médico sobre a quantidade;
- evitar alimentos muito frios, crus ou muito picantes, sobretudo quando há enjoos;
- deitar cedo, fazer pausas ao longo do dia e, se possível, reduzir a carga de trabalho.
Segundo trimestre: digestão, energia e dores
Para muitas mulheres, o segundo trimestre traz alívio: os enjoos diminuem e a energia volta. Mas é também quando a barriga começa a crescer e aparecem outras queixas, como dores lombares e pélvicas, azia, prisão de ventre, pernas cansadas ou inchaço.
Pela Medicina Chinesa, este é o momento de cuidar do Baço e do Estômago, os órgãos ligados à digestão e à produção de energia e de Sangue. Na prática, isto passa por refeições a horas regulares, comidas com calma, com cereais, legumes e raízes cozinhados, como abóbora, cenoura ou batata-doce, e por atividade física moderada. A acupuntura ajuda a aliviar as dores e a apoiar a digestão. Há estudos que sugerem benefício da acupuntura nas dores lombares e pélvicas da gravidez, e é uma das queixas mais frequentes no meu consultório.
Terceiro trimestre: preparar o corpo e a mente
No último trimestre, o corpo está mais pesado e o sono costuma piorar. Surgem a ciática, a dor na bacia, o inchaço nas pernas e, à medida que a data se aproxima, a ansiedade. Nesta fase, o tratamento procura aliviar o desconforto, ajudar a dormir melhor e preparar o corpo e a mente para o parto.
Na alimentação, dou mais atenção a alimentos que, pela Medicina Chinesa, apoiam o Fígado e o Rim: legumes de folha verde-escura, leguminosas como o feijão azuki, peixe, nozes e castanhas, sempre cozinhados. E peço que se guarde tempo para descansar e para «preparar o ninho».

Quando o bebé está em apresentação pélvica
Se, por volta das 32 a 35 semanas, a ecografia mostra que o bebé está em apresentação pélvica, a moxabustão é uma opção a considerar. É uma técnica tradicional em que se aquece um ponto do dedo pequeno do pé com um bastão de artemísia. Faço-a no consultório e ensino a grávida a continuar em casa. Os estudos sobre a moxabustão para ajudar o bebé a virar são promissores, mas não permitem garantias.
A partir das 36 semanas
Nas últimas semanas, as sessões passam a ser de preparação para o parto. Explico como funcionam neste artigo: Preparação para o parto com acupuntura.
Como é uma sessão na gravidez
Na primeira consulta, faço uma avaliação completa: como está a correr a gravidez, que exames foram feitos, que queixas tem, como dorme, como come e como se sente. Observo a língua e o pulso, que na Medicina Chinesa dão muita informação. Depois, ajusto o tratamento à semana de gravidez e ao que a grávida precisa naquele momento.
As sessões são feitas numa posição confortável, muitas vezes deitada de lado, com agulhas finas e em pouco número. Quando faz sentido, junto conselhos de dietética e técnicas como a moxabustão. A frequência depende de cada caso e vai mudando ao longo da gravidez.
Segurança e trabalho em equipa
A acupuntura na gravidez deve ser feita por um profissional com formação específica em obstetrícia, porque há pontos e combinações de pontos que exigem cuidado nesta fase. Fiz formação nesta área e trabalho sempre em complemento com o obstetra e a equipa médica, nunca em substituição. Peço sempre às grávidas que me tragam os exames e que informem o médico de que estão a fazer acupuntura.
Também não uso chás, plantas, fórmulas chinesas ou óleos essenciais sem avaliar cada caso, porque nem tudo o que é natural é seguro na gravidez.
Se tiver perdas de sangue, perda de líquido, dor forte na barriga, dores de cabeça intensas com alterações da visão, inchaço súbito do rosto ou das mãos, ou se sentir que o bebé se mexe muito menos do que o habitual, contacte de imediato o seu médico ou as urgências de obstetrícia.
Três histórias do consultório
Cada gravidez é diferente, e estas histórias não são uma promessa de resultados.
Depois de uma perda. Comecei a acompanhá-la antes de engravidar, poucas semanas depois de uma perda no primeiro trimestre, num contexto de endometriose. Quando engravidou, continuámos juntas até ao fim. No início, o mais difícil foram os enjoos, o cansaço e o medo; mais tarde, a digestão e a dor na bacia; no fim, as insónias, a ciática e uma bebé em apresentação pélvica. Ajustámos o tratamento a cada fase. A bebé acabou por nascer por cesariana.
Uma segunda gravidez por FIV. Chegou-me já mãe de um primeiro filho, a preparar uma nova estimulação, com o endométrio fino. Engravidou nesse ciclo e acompanhei a gravidez do primeiro trimestre até às 37 semanas: primeiro os enjoos, que pioravam ao fim do dia, depois as dores lombares e pélvicas, o inchaço e uma barriga que se tornou muito pesada. Nas últimas semanas, fizemos a preparação para o parto. O parto foi natural.
Um bebé por encaixar. Acompanhei-a ao longo da gravidez. No terceiro trimestre, o bebé ainda não estava encaixado e fizemos moxabustão no consultório, que ela continuou em casa. O parto foi natural.
Acompanhamento na gravidez
Se está grávida, ou a pensar engravidar, e quer ser acompanhada, dou consultas em Alfragide Norte, em Lisboa. Para dúvidas sobre dietética e estilo de vida na gravidez, também tenho consultas online, por videochamada.

